A vida de Laura no Distrito 16 nĂ£o era tĂ£o ruim. MercenĂ¡rios, homens da lei, quem quer que fosse respeitava a dama do fogo, como era conhecida. No auge de seus 20 anos havia defendido muitas causas que nĂ£o a sua. E a qual causa ela pertenceria?
ApĂ³s tantas batalhas, Laura nĂ£o fazia ideia do que defendia ou deveria defender. Pelo que lutar? Por qual motivo entregar sua vida?
Eram pensamentos que passavam pela mente da jovem enquanto vagueava pelas ruas centrais do distrito. Ironicamente passava pelo beco dos desolados enquanto refletia sobre a vida. Os prĂ©dios, de cor Ăºnica, cinza, contribuĂam para a paisagem obscura, dentro e fora de sua cabeça.
Os pedestres, pedintes e mercadoras que passavam por perto nĂ£o pareciam emitir som algum. Laura estava concentrada. Mas em quĂª? Focada em se focar? Estava perdida. NĂ£o sabia, entanto, se jĂ¡ teve algum rumo para seguir, ou se teria.
Chegou em casa. Os cĂ´modos, vazios. Tanto quanto sua vida, avaliou. Deixou a sacola de compras jogada em algum canto e foi direto para o quarto, onde estava o Ăºnico mĂ³vel da pequena residĂªncia, uma cama surrada, tambĂ©m cinza.
NĂ£o chegou a pensar em mais nada. A dama do fogo deitou em meio Ă s cinzas de seu leito e deixou sua consciĂªncia levar-se pela leve brisa que entrava atravĂ©s da janela. Quando deu por si, percebeu sua prĂ³pria figura em meio a um deserto, nĂ£o sabia precisar em qual regiĂ£o do planeta.
Seria alguma loucura? Para onde o mundo dos sonhos a levara desta vez? Nem dormindo Laura tinha paz. Sentia sede. NĂ£o de Ă¡gua. Sentia fome. NĂ£o de comida. Faltava algo em sua vida, e nem mesmo ela sabia dizer o que.
De repente o deserto, quente e seco, começou a mudar de figura. Vento. Areia voando por todos os lados. Os cabelos louros de Laura seguindo a direĂ§Ă£o da ventania. No horizonte apareceram duas silhuetas, duelando.
DifĂcil distinguir quem ou o que eram. Um deles, alto, estava claramente sendo vencido pelo outro, baixo. Laura sentiu vontade de intervir. De lutar. Proteger aquele que era derrotado ao longe. Mas como? Por qual motivo? NĂ£o sabia.
O combate parecia ser intenso, tanto quanto a ventania que tentava incessantemente mover a dama do fogo. Ela permanecia inerte, sem reaĂ§Ă£o. A luta cessara. Um dos duelistas deixava o campo de combate, triunfante e caminhando para um lugar ainda mais distante do que onde se encontrava.
O outro, a figura mais alta vislumbrada pela dama do fogo, permanecia no chĂ£o. A ventania aos poucos perdia força, se transformando em pequenas correntes de ar que passavam por Laura e traziam um som. Era a voz de um homem.
Estava gritando por socorro? Resmungando por ter perdido a luta? NĂ£o. Chamava por Laura. Pedia para que ela o alcançasse. Que fizesse algo. O vingasse. A dama do fogo sentiu o corpo arder, como hĂ¡ muito nĂ£o ocorria.
Inflamada, Laura correu em direĂ§Ă£o ao combatente derrotado. O vitorioso sumira hĂ¡ tempos no horizonte. A figura do homem caĂdo deixava de ser uma silhueta e ganhava forma palpĂ¡vel. Um rapaz. TĂ£o jovem quanto a dama do fogo, seu fĂsico aparentava. Ela nĂ£o conseguia ver seu rosto claramente.
AlĂ©m do corpo, era claramente visĂvel o cabelo carmesim do rapaz. Estava ofegante, a princĂpio. A chegada de Laura trouxe calmaria. Para ele, ela e o deserto. AtĂ© mesmo as leves correntes de ar pararam.
"NĂ£o vou cumprir minha promessa hoje, fagulha", disse o ruivo. Aquelas palavras soavam tĂ£o familiares. Onde a dama do fogo havia ouvido essa frase antes? E quanto Ă voz? Que doce voz ecoava daqueles lĂ¡bios.
Quando percebeu, estava respondendo ao duelista caĂdo. "VerĂ¡s o sol nascer outro dia, Vermelho". EntĂ£o este era seu nome? Como sabia? SerĂ¡ que sabia? Eram tantas perguntas, e nenhuma resposta.
Laura se ajoelhou. Acolheu a cabeça do combatente de cabelo carmesim em seu colo. Sentia uma enorme vontade de protegĂª-lo. Um Ămpeto de se vingar de quem lhe ferira. AliĂ¡s, onde estavam os ferimentos do jovem? Eram fĂsicos? Na alma? Mais uma vez surgia outro turbilhĂ£o de perguntas sem resposta.
O deserto, atĂ© entĂ£o claro, começou a escurecer. A figura do duelista carmesim começara a sumir. A dama do fogo tentou segurĂ¡-lo, impedir que desaparecesse. Em vĂ£o. A ventania teve inĂcio novamente. Trazia um pedido de socorro aos ouvidos da moça.
O despertador tocou. Laura olhou para o teto, cinza. O sonho, intenso, trouxe um pouco de cor a sua vida. Mais do que isso, um propĂ³sito. Talvez nĂ£o fosse a primeira vez que o rapaz de cabelo carmesim aparecera em seus sonhos, e talvez nĂ£o fosse a Ăºltima.
Estava decidido. A dama do fogo iria procurar pelo combatente ruivo. A chama em seu coraĂ§Ă£o ardia, como hĂ¡ muito jĂ¡ fez. Estava decidida. Finalmente tinha um propĂ³sito.Encontrar e proteger o frĂ¡gil rapaz. Sentir a calmaria em seu coraĂ§Ă£o mais uma vez.
Este conto faz parte do projeto "Contos de Naroly", com atualizações semanais. Siga o autor no Wattpad.


























