segunda-feira, 25 de março de 2019

Segundatina: Stardew Valley

Stardew Valley Ă© um dos meus jogos favoritos de todos os tempos. Ele foi produzido por Erick Barone, fĂ£ apaixonadĂ­ssimo pela sĂ©rie Harvest Moon, que foi ficando mais e mais complexa, errando enquanto tentava acertar.

Quando foi publicado pela Chucklefish Games, em 2016, Stardew Valley se tornou um verdadeiro fenĂ´meno. "O retorno dos jogos de fazendinha", bradaram alguns, quando o gĂªnero nunca deixou de existir. De qualquer forma, o jogo explodiu em sua Ă©poca e voltou aos holofotes no segundo semestre do ano passado, quando foi lançado o port para iOS, em outubro. O de Android foi prometido para "algum momento em 2019" e foi lançado no dia 14 de março, motivando sua apariĂ§Ă£o na coluna desta semana.

Enredo

Em Stardew Valley o jogador assume o papel de um personagem saturado do trabalho em uma grande corporaĂ§Ă£o na cidade. Seu avĂ´, no leito de morte, deixou uma fazenda localizada em uma pequena cidade no interior para o neto, desafio prontamente aceito pelo protagonista. No fim das contas, a introduĂ§Ă£o estĂ¡ lĂ¡ como uma desculpa para que o game aconteça, simples assim. E nĂ£o hĂ¡ demĂ©rito algum nisso.

É um gosto pessoal optar por jogos que sabem onde estĂ¡ seu apelo - neste caso fica na mecĂ¢nica - e que focam justamente em seu melhor ponto. O game em questĂ£o atĂ© tem milhares de linhas de diĂ¡logo, relacionamentos com os moradores da cidade, quests para revitalizar o centro comunitĂ¡rio e a economia local, mas Ă© tudo opcional, e se vocĂª quiser simplesmente passar de 15 a 30 minutos pescando, cuidando da fazenda ou minerando, pode fazer justamente isso.

Jogabilidade

Acredito que este seja o ponto principal do jogo da semana. Ele Ă© complexo, com uma leve camada que emula a simplicidade. VocĂª pode simplesmente fazer uma plantaĂ§Ă£o e regĂ¡-la todos os dias, e tambĂ©m pode colocar "x" sementes no solo e antes arĂ¡-lo, passar um fertilizante que retĂ©m o lĂ­quido e elimina necessidade de regar diariamente a plantaĂ§Ă£o, ou ainda colocar um aspersor para "aguar" sua plantaĂ§Ă£o, e ainda produzir aspersores melhores que terĂ£o mais tiles alcançados.
A fazenda começa uma bagunça absurda - Foto: ReproduĂ§Ă£o

O jogador tambĂ©m pode montar um galinheiro e colocar algumas galinhas por lĂ¡ para produzir ovos e ser feliz. Ou vocĂª pode ampliar o local para que caibam mais do que quatro galinhas, colocar um silo do lado para garantir que haja alimento no inverno, soltar os animais durante o dia para que deem um "rolĂª" na fazenda e ainda cuidar da felicidade deles.

O mais interessante dessa opĂ§Ă£o adotada pelo jogo - claramente inspirada por Harvest Moon - Ă© que todas essas situações que a princĂ­pio parecem complexas sĂ£o evoluções naturais. VocĂª vai querer melhorar o machado quando encontrar um tronco diferente que nĂ£o consegue cortar, e tambĂ©m vai querer melhorar o regador quando perceber que ele fica sem Ă¡gua antes de alcançar metade da sua produĂ§Ă£o na "roça".

Toda essa complexidade nĂ£o estĂ¡ lĂ¡ desde o começo, e aparece durante sua evoluĂ§Ă£o nos elementos de RPG do jogo. Ao iniciar a run o jogador sofre para plantar e colher. Com alguns dias de prĂ¡tica, o protagonista sobe de nĂ­vel ao ganhar proficiĂªncia em Ă¡reas como cultivo, mineraĂ§Ă£o, coleta, pesca e combate. É possĂ­vel chegar atĂ© o nĂ­vel 10 em cada habilidade, e no meio do caminho vocĂª pode escolher uma especializaĂ§Ă£o.

No cultivo, por exemplo, ao atingir o nĂ­vel 5 o jogador pode ser rancheiro ou cultivador, o que vai influenciar no valor de venda de produtos de origem animal ou daqueles cultivados na fazenda. JĂ¡ na pesca Ă© possĂ­vel escolher entre pescador e armadilheiro, que tambĂ©m tem suas diferenças. É uma forma de o jogo te dizer que vocĂª vai ser um mestre na habilidade que desejar aprimorar (ou em todas elas, afinal, basta dedicar tempo pra cada tarefa) e pode continuar sendo aprendiz em todo o resto.
É complexidade que vocĂª quer, @? DĂ¡ atĂ© pra casar no jogo! - Foto: ReproduĂ§Ă£o

No caso de querer ser Ăºnica e exclusivamente fazendeiro, vocĂª pode comprar minĂ©rios no ferreiro local, e converter esses itens em barras para suas construções. O ponto negativo Ă© a falta de opções no early game. Quem deseja ficar rico no joguinho precisa apelar para a pesca no inĂ­cio, que Ă© o caminho mais fĂ¡cil para conseguir uma grana e investir em plantaĂ§Ă£o maior.

Mobile

Ainda em relaĂ§Ă£o Ă  jogabilidade, ela funciona muito bem no computador e tambĂ©m nos consoles, mas divide opiniões na versĂ£o mobile. Isso porque para Android e iOS vocĂª pode clicar onde o personagem deve ir ou usar os famigerados botões virtuais. Achei a opĂ§Ă£o padrĂ£o bem ok, mas os descontentes com os dois modos de controle podem parear um joystick bluetooth ou plugar algum controle USB e serem felizes.

A adaptaĂ§Ă£o para Android, feita pelo estĂºdio The Secret Police (que tambĂ©m fez a versĂ£o de iOS) veio com alguns bugs. O mais irritante deles Ă© no som - geralmente quando saio da mina o Ă¡udio fica com "eco", e percebi isso usando fones de ouvido - que, por sinal, sĂ£o extremamente necessĂ¡rios (sĂ©rio, jogue usando fones de ouvido). Fiz o report e o normal Ă© que seja resolvido em breve. AliĂ¡s, no dia seguinte ao lançamento jĂ¡ houve um patch pra corrigir erros apresentados pelo port - jogo fechando em diĂ¡logo com NPC era algo que acontecia no primeiro dia, por exemplo, mas foi corrigido. Senti tambĂ©m uns slowdowns enquanto cortava Ă¡rvores na fazenda. É um ponto a se otimizar, mas o velho Snapdragon 625 do smartphone pode ter contribuĂ­do pra isso.

Como a versĂ£o mĂ³vel tem pouquĂ­ssimas diferenças em relaĂ§Ă£o Ă  de PC, Ă© possĂ­vel atĂ© mesmo copiar o save que vocĂª tem na Steam e usar no smartphone. É algo que tem de ser feito manualmente e nĂ£o hĂ¡ uma ferramenta oficial de importaĂ§Ă£o ou sincronizaĂ§Ă£o com a nuvem aqui.

Seria exigir demais, nĂ£o Ă© mesmo? AliĂ¡s, a principal diferença aqui Ă© a inexistĂªncia do multiplayer, recurso que demorou a ser implantado nos computadores (dois anos e alguns meses), ainda nĂ£o funciona de forma ideal e tambĂ©m nĂ£o existe nos consoles. TambĂ©m nĂ£o hĂ¡ suporte a mods, mas invariavelmente alguĂ©m vai fazer um app pra resolver isso. De resto, o conteĂºdo do mobile Ă© o mesmo existente nas outras versões.

Vale a pena?

Sem dĂºvida alguma. VocĂª nĂ£o precisa ter conhecido Harvest Moon, Story of Seasons ou qualquer outro game de gerenciamento de fazenda para se aventurar em Stardew Valley. Talvez ele nĂ£o tenha o tutorial mais explicativo de todos, mas Ă© muito intuitivo.
Olha sĂ³ quanto tempo de jogo sĂ³ na versĂ£o mobile - Foto: ReproduĂ§Ă£o

Acredito que este seja um jogo perfeito tanto para jogatinas despretensiosas quanto pra dedicaĂ§Ă£o intensa. Comprei a versĂ£o mĂ³vel no dia do lançamento e, entre algumas sessões que duravam minutinhos aqui e minutinhos ali, acumulei mais de 30 horas de jogo! JĂ¡ Ă© quase quatro vezes mais tempo do que as mĂ­seras quatro horas que dediquei Ă  versĂ£o Steam - que comprei alguns meses apĂ³s o lançamento, diga-se de passagem. AliĂ¡s, sempre me perguntei o motivo de nĂ£o existir uma versĂ£o para dispositivos mĂ³veis, pois o jogo era ideal pra isso. E hoje ela estĂ¡ aĂ­.

Onde e quanto?





sexta-feira, 22 de março de 2019

Sobre fliperamas, garotas e anos 90


HĂ¡ alguns bons anos a dĂ©cada de 1980 virou sinĂ´nimo de nostalgia. Isso acabou influenciando direta e indiretamente muitas produções de entretenimento, entre elas a emblemĂ¡tica sĂ©rie Stranger Things (2016), que apela para uma ambientaĂ§Ă£o extremamente fiel Ă  dĂ©cada em questĂ£o, e por isso (e outros elementos) atraiu uma multidĂ£o de espectadores.

A questĂ£o aqui Ă© que nostalgia vende, e muito. HĂ¡ uma explicaĂ§Ă£o bem Ă³bvia pra isso, aliĂ¡s. Muitos dos adultos de hoje eram crianças nas dĂ©cadas de 1980 e 1990, o que significa que tinham pouquĂ­ssimo ou nenhum poder aquisitivo, mas Ă© um pĂºblico ativo economicamente, que consome muito e fica com os olhos marejados ao ver uma referĂªncia ou algo totalmente ambientado no perĂ­odo em que cresciam. E a bola da vez estĂ¡ na dĂ©cada de 1990.

Senta que lĂ¡ vem obra ambientada nos anos 90. Foto: DivulgaĂ§Ă£o/Netflix

Ah, a chamada era de ouro dos jogos eletrĂ´nicos. Enquanto o home gaming era marcado por uma disputa visceral entre Sega e Nintendo, as ruas de muitas cidades eram tomadas por centenas de apaixonados por arcade, ou, como ficaram conhecidos aqui, os saudosos fliperamas. É justamente nesse perĂ­odo que se passa HI Score Girl (ou High Score Girl, tanto faz), mangĂ¡ escrito por Renuske Oshikiri, publicado pela Square Enix e que foi adaptado para a Netflix em formato de anime CGI.
Ambientado no final da dĂ©cada de 1980 e começo dos anos 90, o mangĂ¡/anime conta a histĂ³ria de Haruo Yaguchi, um pentelho insuportĂ¡vel do fundamental viciado em jogos. E quando falo insuportĂ¡vel, Ă© porque o protagonista Ă© mostrado de inĂ­cio como uma criança extremamente chata e naquela idade em que garotos e garotas sĂ£o vistos quase que como inimigos mortais uns dos outros.

O diferencial da obra aparece logo no começo, focando na paixĂ£o de Haruo por games. Ele Ă© o tipo de criança que passa todo o tempo livre em lojas com fliperamas, algo que acaba sendo visto com maus olhos pelos colegas de classe do garoto. Por conta do vĂ­cio, Yaguchi nĂ£o liga pra coisa alguma, e suas notas no colĂ©gio estĂ£o dentro do “dĂ¡ pra passar”.

Eis que um dia ele encontra nos fliperamas um jogador que estĂ¡ arrebentando os demais na fila de Street Fighter 2. O tal player misterioso Ă© na verdade uma colega de classe de Haruo, Akira Ono. E começa aĂ­ uma histĂ³ria de amizade – e, mais tarde, amor – entre os dois. TĂ­pico roteiro de shounen sem vergonha, nĂ£o Ă© mesmo?

Acontece que HI Score Girl arrebentou com as minhas expectativas. NĂ£o Ă© apenas sobre os jogos dos anos 90, ou sĂ³ sobre a paixĂ£o ingĂªnua entre dois estudantes do fundamental. A obra equilibra muito bem os elementos apresentados, enquanto acompanha o amadurecimento dos personagens. Lembram que falei sobre Haruo ser insuportĂ¡vel no inĂ­cio? Conforme vĂ£o passando os episĂ³dios ele se mostra repleto de camadas.

Quanto a Akira Ono, sem dĂºvidas a melhor personagem quase muda que tive o prazer de assistir. Ela nĂ£o fala atravĂ©s de palavras, mas sim de gestos, atitudes e expressões faciais. O tĂ­tulo da obra Ă© referĂªncia direta a ela, uma garota nota dez nos estudos, vinda de famĂ­lia rica e com rotina de aprendizado desumana, que encontra nos fliperamas um alĂ­vio para o stress. Proibida de ter um console em casa, Akira aprende rĂ¡pido nos fliperamas, superando Haruo nos jogos de luta e se tornando uma oponente Ă  altura.
A clĂ¡ssica protagonista de games, Akira Ono. Foto: DivulgaĂ§Ă£o/Netflix

Se o nome da obra Ă© referĂªncia direta Ă  garota, a garota Ă© referĂªncia direta aos protagonistas de centenas de jogos da era de ouro e alguns tĂ­tulos atuais. Me refiro aos herĂ³is mudos, aqueles que sem ao menos dizer uma palavra se fazem entender e imprimem suas vontades ao mundo.
Confesso que me apaixonei pela forma como a histĂ³ria Ă© conduzida desde seus momentos iniciais. As conversas entre Haruo e Akira acontecem nos jogos. Começam com a troca de socos entre Ryu e Zangief (porque ela adora jogar com tanks) e vĂ£o atĂ© as aventuras de Guy e Haggar nas ruas de Metro City.

No meio do caminho surge Koharu Hidaka, outra colega de Haruo e que entra na trama em meio a circunstĂ¢ncias das quais nĂ£o falarei para evitar, o mĂ¡ximo que consigo, spoilers. Koharu aprende com Yaguchi a gostar de jogos e, ao mesmo passo que desenvolve uma paixĂ£o pelos fliperamas, nutre sentimentos pelo protagonista. Se vocĂª sentiu cheirinho de clichĂª no começo, aqui pode ter certeza que rola uma espĂ©cie de triĂ¢ngulo amoroso. A essa hora vocĂª jĂ¡ deve imaginar que Haruo Ă© apaixonado por Akira e o sentimento Ă© recĂ­proco, enquanto Koharu estĂ¡ muito afim do protagonista e nĂ£o vĂª espaço algum na relaĂ§Ă£o. Acertou em cheio.

NĂ£o sĂ£o raros os momentos em que Haruo se pergunta sobre os sentimentos que tem em relaĂ§Ă£o a Akira e, de repente... “Hei, tĂ¡ sabendo que a Sony vai entrar no mercado de videogames?”. Parece um pouco exagerado e repentino, mas as coisas acontecem dessa forma por aqui. A mudança de foco do romance para jogos e vice-versa ocorre o tempo todo e, diversas vezes, me vi sorrindo feito bobo ao identificar um jogo ao qual dediquei horas aparecendo na tela.

Vale notar, aliĂ¡s, que o amadurecimento emocional de Ono e Yaguchi aparece poucos minutos em alguns poucos episĂ³dios, na minha opiniĂ£o. NĂ£o Ă© como se fosse insuficiente, mas sinto que poderia ter sido mais explorado. A Netflix Ă© conhecida por estender desnecessariamente algumas obras (Demolidor, Justiceiro, Punho de Ferro), enquanto outras nĂ£o recebem a mesma atenĂ§Ă£o. NĂ£o Ă© a primeira produĂ§Ă£o deles que sinto falta de mais tempo – vide Big Fish & Begonia – mas jĂ¡ sabemos que vem uma segunda temporada em 2019.
SerĂ¡ possĂ­vel jogar com privacidade? Foto: DivulgaĂ§Ă£o/Netflix

Por falar nisso, foi quase desumano o que a Netflix fez com quem gostou do anime. Lançaram, em 2018, 12 episĂ³dios, sendo o Ăºltimo com um gancho absurdo para continuaĂ§Ă£o, que sĂ³ saiu meses depois, especificamente no dia 20 de março de 2019. Ok, eles precisavam esperar a conclusĂ£o do mangĂ¡ (o que ocorreu em setembro do ano passado) para encerrar a primeira temporada, mas, de qualquer forma, nĂ£o gosto dessa ideia de lançar obras incompletas. E se o negĂ³cio todo fosse um fracasso de pĂºblico na plataforma? FicarĂ­amos com 12 episĂ³dios sem nem ao menos a conclusĂ£o da trama proposta na primeira temporada? DĂ¡ agonia sĂ³ de pensar nessa possibilidade.

AliĂ¡s, por falar em continuaĂ§Ă£o, uma curiosidade interessante Ă© que em 2014 o mangĂ¡ teve sua publicaĂ§Ă£o interrompida por um tempo. A responsĂ¡vel por isso foi a SNK Playmore, dona de propriedades como The King of Fighters e Samurai Showdown. No processo movido pela SNK, a desenvolvedora alegou que o mangĂ¡ infringia seu copyright diretamente ao trazer personagens de suas franquias. Algum tempo depois a empresa entrou em acordo com a Square Enix e a publicaĂ§Ă£o foi retomada.

No fim do dia, considero esta uma daquelas obras que chegam a "dar um quentinho no coraĂ§Ă£o". Piegas? Com certeza! Mas, se vocĂª tem assinatura da Netflix, dĂª uma chance. HI Score Girl aposta suas fichas em conquistar o espectador falando sobre a nostalgia dos anos 1990, para depois prendĂª-lo com um enredo misturando isso a romance juvenil. Ao menos comigo deu certo, e muito.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Mountain Climber: Frozen Dream | A cĂ³pia safada e mercenĂ¡ria de Celeste

Lançado em 2018 pra Windows, Linux, PS4, Xbox One e Nintendo Switch, Celeste foi uma verdadeira dĂ¡diva. Tanto Ă© que o game ganhou o prĂªmio de melhor jogo independente do ano no TGA (The Game Awards). 

VĂ¡rias coisas tornaram Celeste marcante: a jogabilidade, os grĂ¡ficos, a trilha sonora singular e o enredo. AliĂ¡s, ah, que enredo cativante. NĂ£o que seja cheio de reviravoltas e aspectos hollywoodianos, mas o jogo trata abertamente de problemas psicolĂ³gicos como ansiedade e depressĂ£o. A palavra marcante, citada no inĂ­cio deste belo parĂ¡grafo, Ă© um perfeito resumo da Ă³pera de Celeste. E, como estamos fartos de saber desde Super Mario Bros., tudo que faz sucesso rende ao menos uma dezena de clones. 

Com a popularizaĂ§Ă£o do mobile gaming, uma certeza no mundo atual Ă© que se seu jogo nĂ£o for portado para alguma plataforma mĂ³vel, com certeza ele serĂ¡ copiado na cara dura. É com essa mĂ¡xima em mente que surge Mountain Climber: Frozen Dream. Desenvolvido pelo espanhol RubĂ©n Pecellin, o game conta a histĂ³ria de um escalador aleatĂ³rio que tem como objetivo escalar uma montanha que ninguĂ©m jamais escalou, em uma jornada de autoafirmaĂ§Ă£o e repleta de provações. Soa familiar? Pois Ă©.

Com menos de cinco cenĂ¡rios, Mountain Climber Ă© mais um jogo freemium, o que significa que ele Ă© "de grĂ¡tis", mas vocĂª vai ter que desembolsar grana em algum momento e/ou ver propagandas. E esse jogo Ă© literalmente um ad-hell. AtĂ© tem algumas linhas de texto querendo forçar profundidade, mas talvez seja a Ăºnica coisa positiva, pois o resto todo Ă© composto por pontos negativos. O primeiro ponto Ă© a dificuldade extremamente elevada do game. Qualquer passo Ă© o suficiente para o jogador morrer de uma forma absurda e sem sentido. A jogabilidade parece ser bem simples: um toque na tela para pular, e um enquanto estĂ¡ no ar para ativar o "Dash". É algo atĂ© esperado para algo inspirado em Celeste, nĂ£o fossem os obstĂ¡culos que muitas vezes surgem rĂ¡pido demais para lhe arrancar uma vida.
O estilo grĂ¡fico atĂ© que Ă© legal, mas tambĂ©m
Ă© a Ăºnica coisa boa do jogo. Foto: ReproduĂ§Ă£o

No começo achei que fosse pura falta de habilidade, mas em dado momento percebi que os toques simplesmente nĂ£o respondem da forma como deveriam na maioria das vezes. AĂ­ entra a parte do freemium em aĂ§Ă£o. Como o desenvolvedor sabe que vocĂª vai perder vidas diversas vezes, colocou um contador de corações limitados. ApĂ³s zerar, vocĂª Ă© obrigado a usar um coraĂ§Ă£o azul (que Ă© pago) para restaurar sua vida ou assistir uma propaganda. AlĂ©m do ad para poder continuar jogando, vocĂª enxerga o tempo todo uma propaganda na parte inferior da tela e, Ă s vezes entre uma morte e outra, surge uma propaganda de 30 segundos DO NADA ocupando a tela toda. Para remover as "propagandas forçadas" (nome que o prĂ³prio jogo dĂ¡ aos ads) vocĂª precisa pagar ao menos R$ 7,99. O lado bom Ă© que esse valor acompanha alguns corações azuis.

No entanto, mesmo apĂ³s gastar vocĂª ainda tem vidas limitadas e precisa gastar mais ou continuar vendo propagandas para continuar jogando. Ah, e jĂ¡ na primeira fase do jogo aparece um grandĂ­ssimo botĂ£o "Help" no canto superior esquerdo. Clicando nele vocĂª vĂª uma propaganda e aĂ­ pode ver um vĂ­deo ensinando a passar a fase em que acabou empacando. Legal, nĂ©? NĂ£o. Essa, aliĂ¡s, foi a minha maior frustraĂ§Ă£o com Mountain Climber, a de saber exatamente o que fazer e como fazer para passar de fase, mas a Ăºnica forma de interagir com o personagem nĂ£o ser responsiva o suficiente para conseguir executar os pulos nos momentos necessĂ¡rios. 

A cereja do bolo vem agora, na trilha sonora. As mĂºsicas e efeitos do jogo tem volume extremamente baixo. Significa que vocĂª vai precisar usar fones de ouvido e colocar o volume do seu dispositivo no mĂ¡ximo para ouvir alguma coisa. Isso atĂ© do nada surgir uma propaganda com som EXTREMAMENTE ALTO para estourar seus tĂ­mpanos. Mais um requinte de crueldade na receita, fazendo jus ao termo "propaganda forçada" e reforçando ainda mais o sentimento de frustraĂ§Ă£o do jogador com o objetivo de embolsar alguns dinares. Talvez o desenvolvedor nĂ£o tenha se tocado de que, na maioria das vezes, esse tipo de atitude gera efeito contrĂ¡rio.

O saldo que Mountain Climber deixa Ă© negativo, um gosto amargo na boca de quem joga. Se a jogabilidade fosse um pouco melhor e houvesse menos "forçaĂ§Ă£o de barra" com as propagandas, o jogo talvez atĂ© poderia ter chance de ser um clone decente. Definitivamente Ă© um game nĂ£o recomendado. 

sĂ¡bado, 16 de março de 2019

Sobre o tempo em que eu tinha tempo

Foto: Aaron Jasinski, Know Your Roots, 2011
Me lembro perfeitamente da rotina que tinha quando era pequeno. Saía da escola pontualmente às 11h30, chegava em casa às 11h45, almoçava e tinha tempo livre até o início da noite. Preenchia o que pareciam ser infinitas horas com cursos, tempo em frente ao meu Super Nintendo, lendo ou brincando na rua.

Lembro tambĂ©m como era aguardar ansiosamente o lançamento de algum filme e nĂ£o ter dinheiro para ir ao cinema, afinal, o sustento da casa era provido pelo meu pai, e nĂ£o sobrava muito no fim do mĂªs quando o objetivo era sustentar quatro filhos. Comecei a trabalhar aos fins de semana para ajudar, mas ainda me sobrava muito tempo livre.

Hoje, mais de dez anos depois, ocorre o inverso. Consigo, sem muita dificuldade, comprar um livro aqui, outro ali, e faço o mesmo com filmes e jogos. A maior dificuldade Ă© conseguir uma brecha na agenda e consumir o conteĂºdo que eu tanto gosto. A questĂ£o deixou de ser dinheiro.

A impressĂ£o que tenho atualmente Ă© que das 6h Ă s 22h nĂ£o consigo fazer absolutamente nada, e quando sobram algumas horinhas me pego procrastinando, navegando em redes sociais. AtĂ© o tempo que destinava para escrever em projetos pessoais estĂ¡ escasso. 

SĂ³ hoje, com vinte e tantos anos, compreendo que o tempo Ă© um dos recursos mais preciosos que temos. NĂ£o Ă© Ă  toa que muitas empresas pagam por hora. AliĂ¡s, vocĂª, leitor ou leitora, jĂ¡ parou para calcular quanto vale uma hora do seu tempo? VocĂª recebe R$ 5, R$ 10 ou R$ 20 por hora? Mais que isso? Acha justo?

Paralelo a isso, quanto tempo vocĂª reserva para si mesmo, para realizar alguma atividade ou consumir conteĂºdo que te faça bem? E quanto tempo vocĂª desperdiça procrastinando ou simplesmente buscando desculpas para nĂ£o ser uma pessoa realizada? 

Atualmente me encontro esperando que sobrem algumas horinhas para me dedicar a responder essas perguntas. Enquanto isso nĂ£o acontece, sigo sentindo falta da Ă©poca em que eu tinha tempo para fazer o que quisesse. Como diria o cantor e compositor Cazuza, o tempo nĂ£o para!

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A FrequĂªncia Kirlian | Contos de terror Ă  meia-noite

Ao mesmo tempo em que sites como YouTube, Vimeo e afins democratizaram a produĂ§Ă£o e publicaĂ§Ă£o de conteĂºdo em vĂ­deo, tambĂ©m transformaram a briga por espaço no audiovisual em uma verdadeira guerra.

HĂ¡ centenas de websĂ©ries espalhadas por aĂ­ que provavelmente nunca atingiram (e nem vĂ£o) um pĂºblico realmente grande. Uma soluĂ§Ă£o para esses produtores independentes se darem bem, no entanto, Ă© terem seus produtos adquiridos por alguma empresa multimilionĂ¡ria, que investe em pĂ³s-produĂ§Ă£o, marketing, localizaĂ§Ă£o e afins. Foi basicamente o que aconteceu com A FrequĂªncia Kirlian (sĂ©rie de terror/suspense), que estreou em fevereiro de 2019 na Netflix, mas existe hĂ¡ um bom tempo.


Sinopse

Produzida na argentina, a sĂ©rie animada tem curtos episĂ³dios de no mĂ¡ximo nove minutos e foca na existĂªncia de uma rĂ¡dio com programaĂ§Ă£o exclusivamente noturna no povoado de Kirlian, localizado em algum ponto da provĂ­ncia de Buenos Aires. O programa de rĂ¡dio que dĂ¡ nome Ă  sĂ©rie, A FrequĂªncia de Kirlian, entra no ar exatamente Ă  meia-noite, e relata diversos acontecimentos sobrenaturais. É algo bem com uma pegada Stephen King mesmo.

Como surgiu (e chegou Ă  Netflix)

A FrequĂªncia Kirlian teve inĂ­cio em 2009, quando a produtora Tangram Cine fez o piloto da sĂ©rie. O primeiro episĂ³dio nunca foi finalizado, mas a sĂ©rie ganhou novos formatos nos anos seguintes, atĂ© que em 2015 se transformou em animaĂ§Ă£o. O criador do projeto, Cristian Ponce, contou com apoio de HernĂ¡n Bengoa, que jĂ¡ havia atuado em algumas produções argentinas, e assim surgiu o formato atual da websĂ©rie.

Os episĂ³dios mostrando um locutor narrando o cotidiano de Kirlian passaram a ser publicados no YouTube e no Vimeo desde 2017. Foram cinco episĂ³dios, cada um levando trĂªs meses para ser produzido e publicado. No meio do ano passado a sĂ©rie simplesmente sumiu dos canais onde estava hospedada, mas retornou hĂ¡ algumas semanas na Netflix, lançada de forma internacional e com localizaĂ§Ă£o em portuguĂªs e inglĂªs.

Vale a pena assistir?

É uma pergunta bem fĂ¡cil de responder. Nunca fui fĂ£ de produções de suspense ou de terror. Considero boa parte galhofa demais ou forçada demais. Por outro lado, sempre fui um apaixonado pelos trabalhos de Stephen King, que tem forte influĂªncia sobre a sĂ©rie em questĂ£o. A proposta da animaĂ§Ă£o Ă© diferente, com episĂ³dios curtĂ­ssimos e intrigantes. A impressĂ£o que se tem Ă© que houve muito cuidado na produĂ§Ă£o, que termina seu Ăºltimo episĂ³dio com gostinho de "quero mais".

Os episĂ³dios nĂ£o sĂ£o ligados entre si e poderiam, sim, ser mais profundos e duradouros. A cada pequeno conto aumenta ainda mais a vontade de conhecer o vilarejo macabro da telinha. Sem dĂºvida alguma, A FrequĂªncia Kirlian Ă© uma sĂ©rie que vale a pena assistir.

domingo, 6 de janeiro de 2019

WiFi Ralph | Uma animaĂ§Ă£o sobre a toxicidade da internet

Lançado em 2013 pela Walt Disney Animation Studios, Detona Ralph foi um longa de animaĂ§Ă£o repleto de referĂªncias a jogos antigos e que fez relativo sucesso, arrecadando quase meio bilhĂ£o de dĂ³lares em bilheteria. A animaĂ§Ă£o faz parte de uma nova leva de propriedades intelectuais da Disney, que, como qualquer empresa, precisa de novidades para se manter relevante no mercado.
Ah, como as pessoas sĂ£o inocentes ao ver a internet pela primeira vez - Walt Disney/ReproduĂ§Ă£o
Como propriedade intelectual que deu certo e poderia virar uma franquia, obviamente Detona Ralph teve uma continuaĂ§Ă£o seis anos depois, e trata-se de WiFi Ralph, lançado neste janeiro de 2019. O primeiro trata da jornada do personagem principal, Ralph (do fictĂ­cio game Fix It, Felix Jr), que visa deixar de ser vilĂ£o para se transformar em herĂ³i. No decorrer da aventura ele conhece Vanellope von Schweetz, protagonista do game Sugar Rush, e ambos acabam virando grandes amigos. A continuaĂ§Ă£o começa com um breve resumo da histĂ³ria do anterior e retoma do ponto onde Ralph e Vanellope continuam amicĂ­ssimos. Desta vez, a dupla deixa a loja de fliperamas de Litwak e vĂ£o em busca de uma peça para consertar e salvar o arcade de Sugar Rush, para que ele nĂ£o seja desligado em definitivo. E aĂ­ começa uma das sĂ¡tiras mais geniais que este redator jĂ¡ viu.

Em Detona Ralph, tudo que Ă© relacionados aos clĂ¡ssicos de fliperamas dos anos 1970 e 1980 acaba virando piada aqui ou ali e atĂ© mesmo um pequeno easter egg. JĂ¡ a sequĂªncia usa uma mĂ¡scara de filme sobre a importĂ¢ncia da amizade para satirizar a internet atual. E como isso Ă© apresentado e desenvolvido? É o que vamos te contar nos prĂ³ximos parĂ¡grafos - sim, com spoilers

Como citei acima, a premissa do filme Ă© de que Ralph e Vanellope vĂ£o Ă  internet para comprar uma peça sobressalente e consertar a mĂ¡quina de Sugar Rush. O primeiro destino deles Ă© uma praça onde fica um buscador que dĂ¡ as respostas para tudo. A partir dali a dupla principal Ă© levada ao eBay, site no qual estĂ¡ a bendita peça. ApĂ³s participar de um leilĂ£o, o ex-vilĂ£o descobre que acabou dando um lance de mais de 27 mil trumps na peça, e nĂ£o faz ideia de onde conseguir essa grana toda. A primeira tentativa de levantar o dinheiro ocorre dentro de um jogo, Corrida do Caos, onde a dupla precisa conseguir um carro super raro do game para vendĂª-lo e conquistar uma bela quantidade de dĂ³lares. É a primeira referĂªncia a um submercado da internet, o de compra e venda de itens cosmĂ©ticos em jogos, as chamadas micro-transações.

Em dado momento a ideia de conseguir o tal carro Ă© descartada, e uma personagem apresenta a Ralph e Vanellope uma ~maneira fĂ¡cil~ de conseguir dinheiro na internet, que Ă© gravar vĂ­deos sem conteĂºdo algum para publicaĂ§Ă£o na plataforma fictĂ­cia BuzzTube. AĂ­ entra uma boa parte do filme que Ă© focada na crĂ­tica ao conteĂºdo - ou Ă  falta de qualidade dele - na internet. Ralph ganha rios de dinheiro ao publicar vĂ­deos cada vez mais idiotas, seja fazendo piadas ruins com abelhas, memes sem graça, receitas que dĂ£o errado e qualquer outro tipo de vĂ­deo que viralize. HĂ¡ atĂ© uma cena bem bacana nessa parte, em um escritĂ³rio, onde um personagem estĂ¡ cansado de ver mais do mesmo na internet, mas acaba se interessando pelas publicações do protagonista, que no fim das contas sĂ£o as mesmas piadas que ele havia visto anteriormente, mas apresentadas por outra pessoa.
A animaĂ§Ă£o conta com aparições de diversos personagens de clĂ¡ssicos da Disney - Walt Disney/ReproduĂ§Ă£o
Claro que os rios de dinheiro nĂ£o sĂ£o fĂ¡ceis de conseguir. Ralph espalha links em toda a internet para atrair a audiĂªncia, que Ă© cada vez mais sedenta por novidades. AlĂ©m disso, a grande quantidade de likes recebidos por ele gera uma renda enorme Ă  plataforma que mantĂ©m os vĂ­deos, mas um pequeno percentual dessa renda volta para o protagonista. É justamente o que acontece na vida real, nĂ£o? Outro momento interessante ocorre em uma cena na qual Ralph acessa a seĂ§Ă£o de comentĂ¡rios da internet, e se depara com o Ă³dio exacerbado e sem motivo dos seres humanos. A dona do BuzzTube, que atende pelo nome de Yesss, explica ao ex-vilĂ£o que a regra nĂºmero um da internet Ă© nunca, em hipĂ³tese alguma, ler a caixa de comentĂ¡rios de qualquer conteĂºdo. "O problema nĂ£o estĂ¡ em vocĂª, Ralph, mas sim neles" dispara a personagem, referindo-se diretamente Ă  crueldade com que os internautas tratam tudo e todos - e o exagero com que reagem a qualquer pequena polĂªmica tambĂ©m.

Claro, o plot principal nĂ£o fica apenas nisso, e a dupla de personagens principais consegue resolver a treta inicial toda, com um fim falando sobre o amadurecimento deles. Mas decidi me ater Ă s referĂªncias de internet aqui por um motivo, pois acredito que a reflexĂ£o sobre a toxicidade online seja a principal mensagem da animaĂ§Ă£o. Fica Ă³bvio principalmente pelo nome do filme, que Ă© WiFi Ralph, mas o long deixa algumas mensagens bem claras sobre tudo que ocorre na internet. Uma anĂ¡lise interessante a respeito disso foi feita por Helton Simões Gomes, no UOL, sob o tĂ­tulo "WiFi Ralph" traz 10 lições e uma escorregada sobre a internet - a anĂ¡lise fala sobre alguns dos pontos que citei acima e vai alĂ©m, tocando em questões como as bolhas existentes na web e tambĂ©m o papel dos algoritmos no posicionamento de conteĂºdo online.

Essa genialidade toda em satirizar a internet e apontar a toxicidade da convivĂªncia online tem um preço, no entanto. Para focar no ambiente web, WiFi Ralph deixa de lado toda a mitologia apresentada no primeiro filme (como a regra principal de um personagem nĂ£o poder deixar seu jogo durante o horĂ¡rio de expediente, por exemplo), alĂ©m de outros personagens que poderiam ser desenvolvidos um pouco mais ou ter alguns minutos a mais de tela. Ao mesmo tempo, a sensaĂ§Ă£o que fica Ă© de que a questĂ£o da internet poderia ter sido muito mais aprofundada e a animaĂ§Ă£o deixa a desejar tambĂ©m nesse aspecto. WiFi Ralph poderia ter sido muito mais, porĂ©m talvez acabe tendo uma sequĂªncia que continue a abordar o que foi proposto no longa e tambĂ©m dĂª atenĂ§Ă£o ao universo criado pela franquia.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Mercado CrĂ©dito | O "modo carnĂª" do Mercado Livre

Se tem algo que brasileiro adora fazer (ou muitas vezes faz porque Ă© a Ăºnica alternativa possĂ­vel) Ă© comprar parcelado. Pagar no famoso carnĂª com parcelinhas a perder de vista Ă© um costume muito antigo em terras tupiniquins, mas o carnĂª Ă© algo praticamente inexistente em lojas online. Pelo menos era, atĂ© a Ăºltima semana.

Mercado Livre, uma das maiores marketplaces do Brasil, começou recentemente a testar o Mercado CrĂ©dito. Trata-se de uma espĂ©cie de carnĂªzinho do site, que possibilita aos clientes parcelar a compra de itens com preço variando de R$ 75 a R$ 400 e pagar essas parcelas no boleto. É uma mĂ£o na roda para clientes que nĂ£o tem cartĂ£o de crĂ©dito. Como citei acima, trata-se ainda de um projeto em fase de testes, e nem todos os usuĂ¡rios cadastrados no site tem limite disponĂ­vel. VocĂª pode checar seu limite clicando aqui.
Meu limite Ă© de R$ 400 atualmente. Como o Mercado Livre sabe que estou de olho na Mi Band 3, jĂ¡ sugeriram ela

A opĂ§Ă£o nĂ£o estĂ¡ habilitada para todos, e, de acordo com o Mercado Livre, Ă© questĂ£o de tempo atĂ© que chegue aos usuĂ¡rios cadastrados na plataforma. Para quem jĂ¡ conta com o Mercado CrĂ©dito habilitado, hĂ¡ algumas limitações impostas por "motivos de segurança": ainda nĂ£o Ă© possĂ­vel parcelar no boleto compras de cartões prĂ©-pagos para jogos, cartões Xbox Live e PSN, moedas virtuais, joias, bijuterias e poker.

Juros

Nem tudo que reluz Ă© ouro, no entanto. Como ocorre no carnĂª tradicional, o Mercado CrĂ©dito cobra juros por conta do parcelamento. NĂ£o cheguei a fazer simulaĂ§Ă£o de compra, mas o canal Compra Segura, no YouTube, afirma que um produto de R$ 182,99 pode acabar saindo por R$ 317,76 ao ser parcelado em doze vezes. Na simulaĂ§Ă£o feita pelo canal, a taxa de juros ficou em 6,6% ao mĂªs em duas parcelas e 4,7% ao mĂªs em doze parcelinhas. Ou seja, usando o Mercado CrĂ©dito vocĂª paga o preço de dois produtos ao comprar um parcelado. Mas, se adiantar o pagamento, Ă© possĂ­vel receber desconto nas parcelinhas.

Compensa?

Como sempre, cabe ao consumidor decidir se essa modalidade de parcelamento compensa. Pra quem nĂ£o tem cartĂ£o de crĂ©dito Ă© uma mĂ£o na roda, e a estratĂ©gia Ă© excelente para impulsionar a venda de produtos que tem preço acima de R$ 120 (e que por consequĂªncia tem frete grĂ¡tis na plataforma). Como alguĂ©m que usa frequentemente o Mercado Livre, acredito que tenha sido uma boa. Outros marketplaces podem acabar entrando na onda e facilitando a vida dos consumidores no geral.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

O retorno de Grand Chase | Foi em grande estilo?


Grand Chase foi por muitos anos um dos jogos mais populares no Brasil. Desenvolvido e publicado pela KOG no resto do mundo, em terras tupiniquins o game era mantido pela Level Up Games.

Houve todo um cuidado com a localizaĂ§Ă£o do jogo, que recebeu atĂ© dublagem durante seus quase dez anos de atividade. O esmero na localizaĂ§Ă£o explica o carinho especial dos brasileiros por Grand Chase e tambĂ©m a decepĂ§Ă£o de muitos quando em 2015 foi anunciado o fim do jogo. Rumores dĂ£o conta de que na Ă©poca atĂ© houve esforço da LUG para adquirir os direitos do game, mas a KOG se negou a vendĂª-los.

Desde sua morte oficial, Grand Chase nĂ£o foi esquecido. No Brasil o jogo recebeu diversos servidores piratas, mas que nĂ£o tinham novos personagens e que acabavam enjoando os jogadores. Mas eis que chega 2018 e a KOG anuncia o retorno do tĂ­tulo. Desta vez o game foi lançado para plataformas mĂ³veis. HĂ¡ alguns meses servidores ao redor do mundo estavam liberados, e no dia 27 de novembro foi liberado o acesso de brasileiros ao jogo.

Confesso que nĂ£o ouvi falar do novo Grand Chase atĂ© duas semanas antes de seu lançamento. Apareceu como sugestĂ£o de prĂ©-registro na Google Play, fiz minha inscriĂ§Ă£o e compartilhei com outras "viĂºvas" deixadas pelo jogo original, fazendo meu papel de espalhar a palavra. TambĂ©m nĂ£o pesquisei sobre gameplays e afins antes do lançamento de um servidor nacional. 

NĂ£o pesquisar foi uma decisĂ£o consciente por dois motivos: nĂ£o queria tomar spoiler do conteĂºdo e tambĂ©m nĂ£o queria me decepcionar caso nĂ£o atendesse minhas expectativas - que estavam bem altas, diga-se de passagem. Agora, alguns meses depois do lançamento, vamos tentar responder aos poucos a seguinte pergunta: o retorno foi em grande estilo?

O que Ă© legal

Eu seria extremamente injusto se nĂ£o começasse falando da localizaĂ§Ă£o. Pra mim foi o fator marcante no Grand Chase que era habituado a jogar. As falas dubladas, a traduĂ§Ă£o dos menus... Tudo em uma Ă©poca na qual traduzir jogos era algo bem incomum, limitado a traduções nĂ£o oficiais disponibilizadas em fĂ³runs como o Game VĂ­cio. 

E a localizaĂ§Ă£o tambĂ©m estĂ¡ presente na nova versĂ£o. O servidor foi lançado com alguns erros de traduĂ§Ă£o - que os desenvolvedores disseram que vĂ£o corrigir em breve, pois nĂ£o poderiam adiar o lançamento - mas nota-se o esmero na localizaĂ§Ă£o. 

Os personagens tem interações dubladas, os quadrinhos que surgem no enredo estĂ£o traduzidos, tudo como manda o figurino. Tem atĂ© algumas coisinhas que considero extras, como o nome do dublador na ficha de personagem. Definitivamente podemos dizer que a KOG caprichou por aqui.

A trilha sonora tambĂ©m Ă© um ponto a se ressaltar. Ela Ă© ok, e vou usar o clichĂª "cumpre bem seu papel". E o estilo grĂ¡fico tambĂ©m Ă© muito bonito. As animações - de movimentos de personagens a golpes - sĂ£o bem feitas e detalhadas. O estilo cartunesco contribui muito para isso, e a movimentaĂ§Ă£o passa uma enorme sensaĂ§Ă£o de fluidez durante a jogatina.

Para encerrar os pontos positivos, vamos falar da variedade de personagens. SĂ£o dezenas de personagens disponĂ­veis. Eles sĂ£o divididos em classes como Tank, Healer, Archer, Mage e Warrior. Como as missões sĂ£o feitas em grupos com quatro personagens, nĂ£o Ă© possĂ­vel agregar todas as classes em uma Ăºnica equipe, mas podem ser feitas combinações bem interessantes, por sinal.



O que nĂ£o Ă© legal

Vamos ao que me deixou um pouco decepcionado em relaĂ§Ă£o ao jogo em si. A primeira coisa Ă© o estilo gacha. Para quem nĂ£o conhece, esse estilo tem origem nas mĂ¡quinas de gashapon (ou gachapon), que sĂ£o bem populares no JapĂ£o. Nestas mĂ¡quinas vocĂª coloca dinheiro e recebe um boneco de PVC. Nos jogos que usam o estilo, significa que o jogador gasta - moeda do jogo e dinheiro real tambĂ©m - para "invocar" personagens. 

AtĂ© que nĂ£o parece tĂ£o ruim, nĂ£o Ă© mesmo? Se vocĂª nĂ£o estĂ¡ familiarizado com o gĂªnero - bem popular atualmente em grandes franquias portadas para dispositivos mĂ³veis - vou te explicar os motivos de nĂ£o gostar do sistema de gacha. Em Grand Chase os personagens sĂ£o divididos por estrelas e rank de raridade (que vai de B a SR, em ordem crescente de poder). Ao fazer um summon de herĂ³i, hĂ¡ chances de que ele seja de uma classe alta ou baixa. 

Mas Ă© Ă³bvio que essas invocações nĂ£o sĂ£o facilitadas e geralmente exigem uma grande quantidade de moeda especĂ­fica pra isso, que pode ser adquirida com muito esforço ou investindo alguns taokeis. AĂ­ estĂ¡ o pulo do gato: se vocĂª quiser ter um personagem realmente forte precisa gastar muito tempo ou uma bela grana para ter a chance de tentar sortear um herĂ³i bacana. A mecĂ¢nica toda Ă© feita com base em sorte. NĂ£o Ă© algo que me agrada, particularmente, mas que trata-se de uma fĂ³rmula rentĂ¡vel, entĂ£o Ă© compreensĂ­vel a utilizaĂ§Ă£o da mecĂ¢nica de gacha aqui.

A jogabilidade tambĂ©m nĂ£o me agradou muito. Alguns jogos similares, como Bleach: Brave Souls, usam joystick virtual e habilidades clicĂ¡veis com botões emulando um controle tradicional. JĂ¡ no Grand Chase o jogador precisa clicar no local onde quer que os personagens cheguem e clicar e arrastar habilidades. NĂ£o Ă© o fim do mundo, e me lembrou bastante a jogabilidade de Vainglory, mas, como disse ao inĂ­cio do parĂ¡grafo, nĂ£o gostei. No entanto, Ă© possĂ­vel ativar as opções auto move e auto skill, e deixar o jogo se jogar sozinho em missões e atĂ© mesmo no PVP.

Veredito

No fim das contas, podemos avaliar que sim, Grand Chase voltou em grande estilo. Quem tem familiaridade com a lore, conhece personagens e o universo do game, vai gostar bastante do que a KOG fez por aqui. O jogo estĂ¡ disponĂ­vel para Android e iOS

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Segundatina: RWBY Amity Arena


Estamos de volta com mais uma ediĂ§Ă£o da Segundatina, sua coluna semanal de indicaĂ§Ă£o de joguinhos para passar o tempo. Desta vez vamos falar sobre o Clash Royale de RWBY, trata-se de RWBY Amity Arena.

Amity Arena mistura elementos
de estratégia em tempo real com Tower Defense
Para quem nĂ£o conhece, RWBY Ă© uma websĂ©rie de animaĂ§Ă£o criada por Monty Oum e que surgiu em 2013. Ambientada no mundo ficcional de Remnant, a sĂ©rie conta a histĂ³ria de jovens que treinam para virarem caçadores e protegerem o mundo de criaturas das trevas.

Atualmente RWBY estĂ¡ em seu sexto volume, e todos os episĂ³dios podem ser assistidos de forma gratuita no site da Rooster Teeth (estaĂ© a pĂ¡gina oficial da sĂ©rie).

Como todo produto de entretenimento, Ă© Ă³bvio que foi feito um jogo da sĂ©rie e trata-se de RWBY Grimm Eclipse, lançado para PC, Xbox One e PS4, mas que nĂ£o foi um sucesso de vendas. EntĂ£o porque nĂ£o apostar em algo para dispositivos mĂ³veis?

Foi exatamente o que a Rooster Teeth fez ao anunciar parceria com o estĂºdio sul-coreano NHN Entertainment Corporation. Foi aĂ­ que surgiu RWBT Amity Arena, um jogo fortemente inspirado em Clash Royale.

Quem acompanha o Multiverso Convergente certamente conhece o tĂ­tulo da Supercell, que popularizou todo um subgĂªnero de jogos de estratĂ©gia em tempo real. FĂ³rmula essa que foi aprimorada por Star Wars: Force Arena, tĂ­tulo publicado pela Netmarble em 2017 para Android e iOS.

Game tem jogabilidade inspirada
em Star Wars: Force Arena
e interface inspirada em Clash Royale
AliĂ¡s, ouso dizer que Amity Arena foi muito mais inspirado no tĂ­tulo da Netmarble do que em Clash Royale. Isso porque no game da Supercell nĂ£o hĂ¡ distinĂ§Ă£o de herĂ³is e tropas – as cartas podem ser divididas em tropas, construções e feitiços – enquanto em Force Arena, sim.

Dadas as devidas comparações, vamos ao bĂ¡sico, explicando como funciona Amity Arena. Aqui vocĂª enfrenta outros jogadores em uma arena com o objetivo de destruir ao menos uma das trĂªs torres adversĂ¡rias e preservar as suas. Para isso, Ă© possĂ­vel colocar unidades em uma arena, e os personagens podem ser obtidos em forma de cartas.

Cada jogador pode ir Ă  arena com um deck de oito cartas, que podem ser divididas em tropas e herĂ³is. Os herĂ³is sĂ£o mais difĂ­ceis de serem encontrados, porĂ©m geralmente contam com habilidades especiais. O jogo Ă© grĂ¡tis, mas oferece microtransações – Ă© possĂ­vel adquirir baĂºs e chaves para desbloquear mais cartas e acelerar a progressĂ£o.

No geral, se vocĂª gosta de jogos como Clash Royale e tambĂ©m de RWBY, Amity Arena Ă© uma Ă³tima pedida para aquela jogatina rĂ¡pida. O game estĂ¡ disponĂ­vel para dispositivos Android e iOS.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Discord Convergente


Queridos leitores e leitoras, hĂ¡ muito tempo, ainda na Ă©poca em que Ă©ramos o lar do CoraĂ§Ă£o das Cartas, criamos um servidor no Discord, que ficou abandonado por meses. HĂ¡ alguns dias decidi reativar o espaço e organizar jogatinas ocasionais por lĂ¡.

Ă€s terças e sĂ¡bados, especificamente apĂ³s Ă s 19h em ambos os dias, estarei online no servidor para trocar ideias entre uma partida e outra de League Of Legends, ou entre sessĂ£o e outra de PokĂ©mon Revolution e qualquer outro jogo que dĂª na telha - terças e sĂ¡bados sĂ£o praticamente os Ăºnicos dias que garanto estar online, mas ocasionalmente aparecerei no servidor em outros dias da semana.

Entre algumas features, por assim dizer, do servidor, coloquei um bot que toca mĂºsicas do YouTube (Rythm Bot) e outro que acrescenta uma roleplay de PokĂ©mon (PokĂ©cord). Sintam-se convidados a participarem do nosso servidor, e para entrar basta acessar o seguinte link: https://discord.gg/heRA6bR

Segundatina: Towaga


E voltamos com mais uma segundatina neste conceituado blog. Para a coluna da semana separei um game exclusivo de Android, com jogabilidade simples, porém dificuldade elevada. Vamos falar de Towaga!

Desenvolvido pela Sunnyside Games – mesmo estĂºdio de The Firm – o jogo te coloca na pele de ChimĂ¹, um personagem xamĂ£ que protege o templo de Towaga.

O objetivo Ă© ficar no topo do monte usando duas habilidades para evitar a aproximaĂ§Ă£o de monstros, sendo que uma fica do lado direito e a outra do lado esquerdo da tela. É uma mecĂ¢nica que lembra muito jogos do tipo tower defense (ou temple defense, abusando do trocadilho neste caso em especĂ­fico).

Towaga conta com cinco mundos diferentes, e cada fase Ă© mais difĂ­cil que a anterior. Como Ă© fĂ¡cil de jogar, no entanto, Ă© possĂ­vel aproveitar de seções curtas do game sem enjoar. A trilha sonora Ă© outro ponto positivo, e que o jogo faz questĂ£o de ressaltar ao exibir um belĂ­ssimo de um aviso informando que “Ă© melhor jogar usando fones de ouvido”.

HĂ¡ tambĂ©m a possibilidade de desbloquear visuais diferentes para ChimĂ¹ conforme o jogador cumpre desafios, e nĂ£o hĂ¡ como comprar essas skins – ou seja, o jogo Ă© livre de microtransações, ao menos por enquanto.

Towaga estĂ¡ disponĂ­vel apenas para Android, de forma gratuita, e pode ser instalado clicando aqui

Uma curiosidade sobre o jogo Ă© que a Sunnyside Games estĂ¡ desenvolvendo o tĂ­tulo Inlight, que usa das exatas mesmas mecĂ¢nicas de Towaga, e que deve chegar ao PC, Mac e Nintendo Switch em meados de 2019. VocĂª pode saber mais sobre Inlight na pĂ¡gina do jogo na Steam. 

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Segundatina: Battlelands Royale

E depois de algumas semanas de muita correria, finalmente consigo me dedicar ao blog novamente nas horas vagas, começando com o retorno da Segundatina!

O jogo da semana Ă© mais um do gĂªnero Battle Royale, e trata-se de Battlelands Royale. Desenvolvido e publicado pela Futureplay, o game se destaca primeiro pela visĂ£o top down. É um ponto positivo principalmente para quem sofre de motion sickness e tem dificuldades em jogar qualquer tĂ­tulo em primeira ou terceira pessoa.

Os grĂ¡ficos lembram muito o estilo chibi, e hĂ¡ quem diga que Battlelands Royale pareça muito uma versĂ£o mini de Fortnite, maior expoente do gĂªnero na atualidade.

Caso vocĂª nĂ£o tenha familiaridade com Battle Royale, vamos explicar como funciona o jogo desta Segundatina. O game coloca 32 jogadores em um mapa que vai diminuindo aos poucos. Repleto de armas e munições, o cenĂ¡rio faz com que os jogadores batalhem entre si pela sobrevivĂªncia. Uma partida de Battlelands Royale dura, geralmente, de trĂªs a cinco minutos.

Diferente de outros jogos do gĂªnero, aqui nĂ£o hĂ¡ como jogar em esquadrĂ£o, apenas nos modos solo ou em dupla - que pode ser formada com um amigo ou outro jogador aleatĂ³rio. Gratuito para jogar, Battlelands arrecada com a venda de Battle Bucks, moeda prĂ³pria que possibilita a compra de itens cosmĂ©ticos e do Passe de Batalha, que dĂ¡ acesso a itens de visual e personagens novos.

O game se encontra atualmente na segunda temporada, e pode ser instalado em dispositivos Android e iOS.




sĂ¡bado, 13 de outubro de 2018

RevelaĂ§Ă£o


Dor. Foi o que Laura sentiu antes de abrir os olhos. Ao mesmo tempo em que incomodava, a dor lembrava que a dama do fogo havia sobrevivido. Mais do que isso, a jovem também se sentia humilhada.

Em todos os seus anos como combatente e mercenĂ¡ria profissional, Laura nunca havia amargado tamanha derrota. E o culpado era aquele homem. Do cabelo castanho. Ou era carmesim? Tinha certeza de que algo estava errado.

As luzes da enfermaria começaram a incomodĂ¡-la. Estava praticamente sozinha no quarto. Ao menos trĂªs outros leitos eram ocupados por pessoas que foram derrotadas no Torneio MĂ­stico. Estranhou nĂ£o ver algum mĂ©dico ou enfermeira no local.

Conseguiria se levantar? Tentou. Conseguiu. Saiu do quarto e foi para o corredor. Começou a ouvir um alto barulho. Eram vozes, de milhares de pessoas. Percebeu que do lado de fora estava a arena. A final do torneio estava prestes a começar. Por sorte, Laura acordou a tempo de ver a Ăºltima luta.

Se misturou em meio Ă  multidĂ£o nas arquibancadas. Os narradores, animados, anunciavam o Ăºltimo confronto. Eciel, do Distrito 19, o rapaz de cabelos castanhos, entrava de um lado. Do outro estava Evard, o general que fora derrotado pela dama de fogo na ediĂ§Ă£o anterior do torneio.

Aquele que era considerado o rosto da maior corporaĂ§Ă£o paramilitar do mundo parecia diferente. Seus olhos pareciam nĂ£o ter pupilas e Ă­ris, pois eram inteiramente brancos. Os cabelos estavam grisalhos. No entanto, parecia estar em seu auge fĂ­sico. Eciel, se este era seu nome mesmo, seria facilmente derrotado, pensou Laura.

O combate começou. Evard se movia muito rĂ¡pido. Avançava e atacava tal qual um lince. Mas o adversĂ¡rio tambĂ©m era veloz. Enquanto o general tentava acertar qualquer golpe que fosse, Eciel se evadia, sem retrucar.

A situaĂ§Ă£o deixou o general visivelmente incomodado. ApĂ³s mais de cinco minutos em uma espĂ©cie de jogo de gato e rato, nenhum dos dois demonstrava cansaço. Sem deixar a arena, Eciel desviava de cada golpe, recuando pouco a pouco. Evard continuava investindo, ficando cada vez mais irritado.

De repente o primeiro golpe. NinguĂ©m viu como aconteceu, apenas o desfecho. O general foi arremessado e caiu a 20 metros de distĂ¢ncia. Estava visivelmente furioso a essa altura. Murmurou algo que Laura nĂ£o conseguiu entender. Era muito provĂ¡vel que ambos os combatentes haviam se esquecido da arquibancada e o pĂºblico ao redor do centro da arena.

Em um piscar de olhos Evard começou a emanar uma forte energia. O pĂºblico todo conseguiu sentir a pressĂ£o exercida por ele. Uma aura branca, quase imperceptĂ­vel, cercou seu corpo. Os olhos brancos emitiam luz. O combate ficara sĂ©rio.

NinguĂ©m viu como ele saiu do local onde estava e se posicionou atrĂ¡s de seu adversĂ¡rio. Eciel nĂ£o demonstrou surpresa. Sem ao menos encarar o general, o rapaz desviou de um golpe que certamente parecia fatal.

Evard demonstrava sinais de cansaço. Eciel permanecia sereno, mantendo a mesma expressĂ£o que tinha desde o inĂ­cio do torneio. O general ficou descontrolado. Movia-se de forma que o pĂºblico nĂ£o conseguia vĂª-lo. Quem acompanhava a luta enxergava apenas os rastros da destruiĂ§Ă£o causada por ele na arena. Por onde passava, Evard levantava o chĂ£o.

Os narradores tratavam a evasĂ£o de Eciel como um milagre. A arena toda sentia o impacto do general, mas o jovem permanecia intocado. DramĂ¡tica, a Ăºltima luta do torneio chegava aos trinta minutos de duraĂ§Ă£o.

De um lado estava um dos maiores vencedores do torneio, agora encoberto por um manto quase translĂºcido. Do outro, um iniciante que havia destronado a dama de fogo e estava prestes a destruĂ­-lo.
Laura tentava acompanhar o ritmo dos combatentes, assim como todos os presentes na arena. Foi quando Evard parou de se mexer. Sua força acabou? Eciel esboçou um riso malicioso de canto de boca. Parecia estar esperando a brecha para atacar o oponente, e aquela deveria ser a oportunidade.

Mas como? Havia o desafiante desconhecido sabotado o general? NĂ£o, nĂ£o era possĂ­vel. Laura pensava que a luta foi estendida de propĂ³sito. O objetivo era claro, fazer com que Evard usasse o mĂ¡ximo de poder e acabasse fadigado em algum momento. NĂ£o parecia uma estratĂ©gia honrada, mas era eficaz.

A plateia ficou estupefata com o que aconteceu a seguir. Enquanto o general fazia esforço para atĂ© mesmo piscar os olhos, Eciel foi coberto por uma aura vermelha. Sua roupa, atĂ© entĂ£o branca, ficou preta. Olhos e cabelos vermelhos. Agora, sim, se assemelhava Ă  figura que aparecia nos sonhos da dama de fogo. Teve certeza de que era ele.

A aura desapareceu, mas Eciel permaneceu em sua nova forma. Outra revelaĂ§Ă£o em seguida. A voz do desafiante reverberava pela arena. “Ouçam todos. Chamo-me Rujick Fanyc, filho de Otto. Alguns de vocĂªs me conhecem por Vermelho. E neste momento sentencio Evard, general da OrganizaĂ§Ă£o, a perder todo seu prestĂ­gio e poderes”.

A arquibancada respondia com silĂªncio. AtĂ© mesmo as vozes dos narradores se calaram. Os capas-brancas, soldados da OrganizaĂ§Ă£o que faziam a segurança do torneio moviam-se nervosamente entre o pĂºblico, tentando chegar ao centro da arena.

Em questĂ£o de milissegundos Vermelho se materializou diante de Evard. A mĂ£o direita sobre a cabeça do general. Forte luz. O cabelo grisalho ficou preto. O corpo perdeu os mĂºsculos visĂ­veis e tomou feições esquelĂ©ticas. Os olhos foram substituĂ­dos por dois buracos.

Evard nĂ£o fora simplesmente derrotado, mas sim destruĂ­do. Os capas-brancas alcançaram os combatentes. Espadas, armas de fogo e lanças apontadas para Vermelho. Laura sentiu fluir a mesma energia monstruosa que tomou conta do saguĂ£o de inscrições do torneio dias atrĂ¡s.

Os soldados nĂ£o conseguiam se mover. NinguĂ©m se mexia. Os olhos de Vermelho pareciam arder. E entĂ£o ele sumiu. Nenhum rastro de energia. Todos ainda estupefatos com o que acabaram de presenciar. Os capas-brancas estavam perdidos, nĂ£o sabiam como e onde procura-lo.

Mas Laura tinha uma pista do que fazer. Iria atrĂ¡s do homem. Queria, de uma vez por todas, descobrir o que seus sonhos significavam e o que deveria fazer.

Este post faz parte do projeto "Contos de Naroly", com atualizações semanais. Siga o autor no Wattpad

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